Entenda a diferença entre Liberal Conservador e Conservador Liberal

Conservador Liberal e Liberal Conservador

Eu sou um liberal conservador católico. Para alguns, isso soa confuso ou um paradoxo. Como alguém poderia ser liberal e conservador ao mesmo tempo? Não é contraditório? Seria o tal liberal na economia e conservador nos costumes? 

O que acontece, na verdade, é que existem duas ideologias diferentes e de nomes bem confusos: o conservadorismo liberal e o liberalismo conservador. Ambos são parecidos aos olhos da esquerda, mas têm origens e crenças diferentes, e entendê-las é a chave para não cair em contradição no debate público.

O que é um Conservador Liberal?

Antes de tudo, precisamos entender que o conservadorismo que vemos na tradição política não necessariamente é o único. “Liberal”, neste caso, é só um adjetivo que diferencia o tipo de conservadorismo fundado pelo liberal Edmund Burke daquele pregado por reacionários ou tradicionalistas religiosos. Esta explicação sobre o conservadorismo liberal é inspirada na de Carl Benjamin, o britânico também conhecido como Sargon of Akkad.

A vida segundo a virtude

Conservadores agem em nome da virtude. O que é virtude? Nós católicos até temos toda uma doutrina sobre isso, mas Carl usa a definição de Aristóteles e argumenta ser um meio termo entre a falta e o excesso. É fazer a coisa certa em cada circunstância, e não apenas fazê-la porque é o certo, mas porque é o que você quer fazer.  

Isso não é algo que possa ser medido ou alcançado por conta própria, mas sim algo que as outras pessoas percebem de você. E isso faz sentido! Afinal, não basta se dizer uma pessoa paciente para ser uma de fato. São as outras pessoas que reconhecem, pelos nossos hábitos e comportamentos, a paciência que temos ou não. E como as virtudes são coisas que só podem ser percebidas ao longo do tempo, os conservadores veem a ideia de tempo como fundamental para sua doutrina.

O pacto da tradição

O teórico fundador do conservadorismo, o liberal inglês Edmund Burke, viu com maus olhos a Revolução Francesa. Retrocessos como o período do Terror o fizeram escrever um livro criticando-a (Reflexões sobre a Revolução na França), no qual ele aponta o abandono das tradições e estruturas como erros responsáveis por seu fracasso. 

O argumento de Burke é muito similar ao que vemos em Hayek: ambos defendem que a razão de um indivíduo sozinho é pouca mas que, em conjunto com a sociedade, forma uma rede descentralizada muito mais poderosa do que um único planejador ou comitê governamental seria capaz de conseguir. Para Burke, porém, essa rede se manifesta por meio da tradição, que seria o conhecimento acumulado de inúmeras mentes ao longo de muitas gerações. Cada uma adicionando algo seu e refinando o resultado. 

Por conta disso, a tradição seria um pacto da humanidade entre os que vivem hoje, os que viveram antes, e os que ainda não nasceram. Para os conservadores, essa união entre presente, passado e futuro faz de cada um de nós um herdeiro, cuja missão na sociedade é preservar os valores e avanços da geração passada, e cuja responsabilidade é transmiti-los para futuras gerações, melhorando-os onde possível. E é aí que entra o valor da família para a doutrina conservadora.

Porque a família é importante para os conservadores? 

Para os conservadores, a família é a menor unidade da sociedade. Nela, o pacto contínuo entre gerações visto acima é intuitivo na corrente entre avós, pais, e filhos: sobrevivemos até a vida adulta graças ao cuidado de nossos pais, assim como é nossa responsabilidade dar a nossos filhos as mesmas condições (ou melhores) que tivemos quando crianças. É nas famílias que aprendemos nossos valores e costumes, e a união descentralizada de famílias e seus costumes que forma a sociedade na qual vivemos. 

Portanto, a família importa para o conservador porque é dela que surgem os benefícios ou defeitos da sociedade como um todo: ter pais abusivos ou carinhosos determinará se sua casa será um lar onde pode se refugiar dos perigos do mundo ou uma prisão infernal impossível de se escapar. E esse sentimento, em ambos os casos, irá irradiar para fora de casa e afetar a sociedade ao nosso redor. A condição de onde moramos, portanto, dita quem somos e como agimos em sociedade. 

E por isso a preocupação com crianças é fundamental para o conservador: pois é melhor prevenir do que remediar. Muitos dos problemas que nós adultos enfrentamos são resultados de uma infância sofrida, e muito mais difíceis de arrumar na vida adulta do que durante a infância. Por isso, pelo bem do indivíduo e da sociedade, os inocentes devem ser protegidos e os valores tradicionais de pai e mãe devem ser passados adiante: porque eles importam. Porque o bem estar dos ainda não nascidos depende dele. As pessoas no topo da sociedade teriam então uma responsabilidade com aqueles na base, e assim como as pessoas do presente tem uma responsabilidade com aqueles no passado e expectativas a cumprir das pessoas do futuro. 

Genuínos conservadores defendem que a melhor maneira de se resolver problemas é por meio do voluntarismo, da responsabilidade própria, da família, dos amigos e da igreja, e não por meio de um governo monolítico que miraculosamente fará com que o indivíduo passe a cuidar de si próprio e se torne uma pessoa melhor. Conservadores genuínos sabem que o governo não pode fazer com que o indivíduo se aprume e passe a seguir bons hábitos.

– Frederick Hayek, porque não sou conservador

O Paradoxo Conservador

Conservadores defendem a tradição e os costumes, o que os impede de ter um grande ideólogo como Rousseau ou Mill. Como apontado tanto por Sargon quanto por Hayek, o conservadorismo não propõe novas ideias, mas sim reformas já existentes e comprovadas como soluções. Isto, como aponta Hayek, resulta nos conservadores fazendo concessões aos socialistas cada vez mais, sendo uma força que resiste mas nunca avança. O conservador, por definição, não pode defender novas ideias a priori, apenas apontá-las como válidas a posteriori. Para que o conservador consiga ter ganhos ideológicos contra seus oponentes, ele precisa de uma doutrina normativa que descreva em detalhes como o mundo deveria ser (papel antes feito pela Bíblia).

Isso os coloca num paradoxo: apoiando-se na tradição e costumes ao invés de uma ideologia fixa, o conservadorismo está fadado a perder. Entretanto, se os conservadores fixarem uma fórmula ideológica para seguir, eles acabam por destruir aquilo que queriam proteger. 

Não é um problema pelo qual se possa sair facilmente. No entanto, Sargon propõe que os conservadores tentem avançar apelando pela estética, ou seja, respostas emocionais em relação aos avanços. Lutar para que construções voltem a ter estilos tradicionais, por exemplo.

O que é um Liberal Conservador?

Apesar dos nomes parecidos, ambos têm origem e crenças totalmente diferentes! Enquanto o conservadorismo liberal surge na Inglaterra com Edmund Burke e negando a Revolução Francesa, o liberalismo conservador surge na França durante a Restauração francesa. 

Conforme outros liberalismos surgiram (progressistas, liberal social, etc), foi preciso diferenciar esses antigos liberais das variantes liberais mais recentes. O “conservador” deste liberalismo é apenas um adjetivo querendo dizer “clássico”, “antigo” (tanto que, nos EUA, é conhecido como classical liberalism). Esta é a vertente de Roberto Campos, influenciado por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, e é denominada por Merquior como liberismo. Esta explicação sobre o liberalismo conservador é inspirada, entre outros, pelo texto de Hayek “porque não sou um conservador”.

TLDR: Sempre bom ter um consenso!

Liberais Conservadores seguem o chamado “consenso de Washington”, cujas pautas se resumem a redução dos déficits fiscais, câmbio flutuante, privatizações e desburocratização.

A menor minoria é o indivíduo

Nascido na França pós revolução, esse liberalismo é muito mais focado no indivíduo atomizado do que em famílias ou costumes. Como visto no famoso livro “A Lei”, de Frédéric Bastiat, vemos uma preocupação maior com direitos naturais do indivíduo do que nas vidas coletivas das famílias

Os liberais conservadores religiosos verão direitos naturais sob o prisma cristão, enquanto os ateus, pelo prisma moral e ético da Grécia antiga. Para o liberal, esses direitos naturais são preciosos não porque são uma tradição muito antiga, mas porque correspondem aos ideais que tanto preza. Similar à situação da Revolução Francesa, eles veem no indivíduo a menor minoria de todas, vulneráveis à tirania de governos. Portanto, para permitir que todos viverão sem medo da tirania estatal, é preciso garantir os direitos de todos, até mesmo daqueles que discordamos. Foi por causa disso que estes liberais tiveram papel fundamental na abolição da escravidão mundialmente.

A escolha acima dos costumes

Por conta do respeito ao indivíduo atomizado, liberais conservadores são a favor da legalização e descriminalização dos chamados “crimes sem vítima” (consumo de drogas, por exemplo). Afinal, se essa pessoa não está machucando ninguém, não deveria ser perseguida pelo estado por isso. E note: não é preciso concordar com o comportamento, como muitos liberais não concordam. Essa defesa é feita porque, quando permitimos que uma pessoa seja injustamente perseguida, abrimos espaço para que qualquer um de nós o seja no futuro. Exemplo disso foi uma prática comum de advogados judeus ou negros de serem advogados de defesa de neonazistas ou racistas nos EUA, para defender a liberdade de expressão deles mesmo sendo contra tudo o que tinham falado.    

A economia Laissez-faire nada mais é do que um reflexo deste pensamento aplicado ao lado econômico. As escolhas de cada indivíduo atuam descentralizadamente para alterar o mundo ao seu redor, de forma que permitir a intervenção sob um agente econômico permite novas e maiores intervenções até que ninguém seja, de fato, livre.

Seja religioso ou ateu, é um cético

Nascidos com a revolução francesa, os liberais conservadores têm valores iluministas de que a razão e seus produtos – o progresso científico e a tecnologia – poderão levar o homem à utopia. Ainda assim, eles mantêm desconfiança em relação à razão, pois estão conscientes de que não sabemos todas as respostas e não tem certeza de que as respostas de que dispõe sejam de fato as certas ou mesmo se um dia poderemos ter respostas para tudo.

Aqui há uma divisão: é possível para o liberal conservador ser religioso ou ateu, e tivemos diversos exemplos disso ao longo dos séculos. O apoio ou não de uma religião, tradição, ou costumes é algo opcional para o liberal conservador. No entanto, seja pela fé no Deus de Israel ou seja pelo conhecimento da filosofia clássica, ambos são unidos por princípios universais de moral e ética, nos quais cada indivíduo atomizado tem o seu valor e direitos. Não porque são garantidos pelo estado, mas porque existem igualmente para todos. Eu, por exemplo, sou um liberal conservador com valores tradicionais católicos, mas um dos liberais conservadores brasileiros que mais me inspira é um homem gay e ateu.

Ao pensar no liberal conservador, pense nos anos da Belle Époque do século XIX, cujas conquistas da razão derrubaram regimes autoritários e elites políticas em defesa da igualdade de oportunidade para todos. Pense em Bastiat, Tocqueville, André Rebouças, e, sim, pense em Mises também.

A Infiltração Identitária no Liberalismo

O problema atual dos liberais conservadores, por outro lado, é semântico. Termos antes defendidos por liberais conservadores vem sendo cada vez mais expandidos pelos socialistas e identitários para significar o seu oposto. Quando uma pessoa de esquerda fala, por exemplo, em liberdade de oportunidades, a defende como um sinônimo da liberdade de resultados. Quando defende igualdade, o faz como um sinônimo de equidade. 

Dessa forma, o fluxo ideológico liberal vem sendo infiltrado e substituído semanticamente para que os mesmos argumentos antes usados para defender a economia Laissez-faire e igualdade perante a lei sejam agora usados para defender a economia intervencionista e o retorno de castas privilegiadas. Outra consequência, que vimos recentemente na Copa do Qatar, são os regimes autoritários utilizando-se disso para defender a opressão de mulheres e LGBTs, alegando que defender a liberdade deles seria imperialismo ocidental.

Neste caso, um pouco inspirado na dissertação “conservadorismo, um obituário” de Ayn Rand, eu diria para não cedermos nossos dogmas e focarmos em nossas ideias objetivamente. Não ceder à cultura identitária, mas sim promover nossos próprios dogmas e culturas como concorrente nos espaços e discursos que são hegemonicamente identitários. É preciso ocupar esses espaços para difundir nossas ideias. 

Tendo explicado tanto a posição conservadora liberal quanto a posição liberal conservadora, vamos ao elefante branco.

“Liberal na economia e Conservador nos costumes”

De 2017 para cá, popularizou-se no Brasil definir-se como “liberal na economia e conservador nos costumes”. Tanto liberal conservadores quanto conservadores liberais adotaram o lema, confundindo ainda mais a situação. O motivo disso ter acontecido, porém, é claro: a direita brasileira não tem tradição. As posições políticas válidas até então no Brasil eram 50 tons de marxismo, o tradicionalismo religioso, ou a social democracia sendo acusada de neoliberalismo. 

A difusão do termo foi uma oportunidade única tanto para conservadores liberais quanto para liberais conservadores de entrar para o debate público e enfim participar ativamente, pois moveu a janela de Overton à direita e permitiu que estes dois grupos fossem aceitos, mas ao preço de seus valores serem confundidos um com o outro.

E disso surge a principal crítica aos dois termos: com essa confusão, há quem defenda valores conservadores em meios liberais e quem defenda valores liberais em meios conservadores. Isto é errado, pois as diferenças entre liberais e conservadores são tantas que o próprio Hayek imaginou o espectro político como um triângulo equilátero entre liberais, conservadores e socialistas. E por isso os críticos dessa mistura de ideais estão corretos ao afirmar que ela não existe, porém erram ao não perceber que o conservadorismo liberal e o liberalismo conservador são duas ideologias diferentes e válidas por si só.

Não acho que este texto seja suficiente para alterar essa confusão no debate público das duas ideologias citadas (talvez, você defendesse uma delas e nem soubesse). Mas escrevo para que você, liberal conservador ou conservador liberal, consiga entender melhor qual ideologia defende, e também possa aprender a  diferenciá-las para não cair em contradição durante o debate de ideias. 


Paulo Grego

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