Ditadura do Relativismo: como a ambiguidade e a falta de conceitos objetivos ameaçam a liberdade

Ditadura do Relativismo

Recentemente, tivemos um ótimo texto no blog do Damas de Ferro sobre a crescente pressão coletivista da cultura identitária (woke). É um texto que aborda muito bem a atual guerra cultural sob a perspectiva de Ayn Rand e Jordan Peterson, e cujos argumentos eu concordo, mas sinto que posso complementar. Isso porque há um pensador que definiu perfeitamente um conceito que engloba tudo o que foi dito no texto; e que passou os últimos 60 anos lutando contra a guerra cultural. Estou falando do recentemente falecido Papa Bento XVI, anteriormente conhecido como Joseph Ratzinger

“Enquanto o relativismo, isto é, deixar-se levar ‘aqui e além por qualquer vento de doutrina’, aparece como a única atitude à altura dos tempos hodiernos. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades”.

Joseph Ratzinger, 2005

Mas…por que citar um líder religioso? Você ficaria surpreso: Ratzinger foi professor universitário de teologia em diversas universidades alemãs. Ele era reconhecido como um grande filósofo intelectual, e cujo debate com Jürgen Habermas sobre as bases morais pré-políticas de um Estado liberal é tido como um dos grandes debates do século XX. Além disso, o foco acadêmico de Ratzinger estava justamente na importância da Verdade Absoluta e sua supressão pelo dito mainstream. Sua análise que resultaria no conceito da Ditadura do Relativismo aborda os mesmos problemas que vemos hoje, com décadas de antecedência, e oferece respostas que permanecem fundamentais atualmente. 

Verdade Absoluta, Verdade Factual, e Verdade Factível

Quando começou o ataque à Verdade Absoluta? Muito além da Escola de Frankfurt, este é um problema relacionado à modernidade como um todo. Mas onde exatamente? Bem… muitos pensariam na reviravolta espiritual causada por Descartes e mais tarde tornada definitiva por Kant. Ratzinger (2005), no entanto, enxerga numa máxima do filósofo italiano Giambattista Vico (1688-1744) o verdadeiro ponto de início do espírito moderno: verum quia factum (verdadeiro porque aconteceu).

Pera…oi? O que isso significa? Bem…vem comigo que eu explico.

A máxima de Vico é na verdade uma resposta a uma antiga equação escolástica existente na Idade Média, verum est ens (a verdade é o ente), onde a verdade residia na existência das coisas. Em outras palavras, a fórmula escolástica era uma visão objetiva da realidade na qual algo seria verdadeiro porque existe. 

Ao contrapor a antiga fórmula, Ratzinger (2005) aponta a máxima de Vico como o fim propriamente dito da metafísica anterior. Afinal, se a realidade passa a ser vista como subjetiva, incerta, e apenas aquilo que sabemos que aconteceu poderia ser confiável, então apenas aquilo feito pelo ser humano seria considerado verdadeiro. Foi a partir deste novo paradigma que a matemática e, principalmente, a história ganharam um enorme espaço na sociedade como ciências responsáveis pela verdade. Entretanto, esta forma de pensar também seria descartada cem anos depois, destronada por outra que ajudou a criar.

A Guinada ao Pensamento Técnico

O século XIX foi uma época na qual remédios e vacinas finalmente eliminaram as pragas; trens e automóveis permitiram viajar grandes distâncias num instante; telégrafos permitiam comunicar-se com todos os continentes; luzes elétricas transformaram a noite em dia; e o avião realizou o eterno sonho da humanidade de voar. 

E o mais impressionante para as pessoas daquela época foi que viram todas essas maravilhas futuristas acontecerem ainda em vida! Se continuasse nesse ritmo, o que mais não resolveríamos em 100 anos? Em 200 anos? Com a tecnologia resolvendo tantos problemas tidos como impossíveis pela humanidade, porque não imaginar que ela seria capaz de um dia realizar todos eles? Para essas pessoas, viver nessa utopia era mera questão de tempo. 

Esse otimismo se refletiu até mesmo na antropologia e na teologia. De acordo com Ratzinger (2005), foi no século XIX que a tecnologia gradualmente eclipsou a história como a ciência da verdade. Não mais interessado em ser o guarda do museu de seu próprio passado, o ser humano passou a se compreender como aquele que iria conduzir a si mesmo na direção de um futuro novo (Ratzinger, 2005). 

“Até agora, os filósofos só interpretaram o mundo de diversas maneiras; importa agora transformá-lo”

–  Karl Marx apud Joseph Ratzinger (2005)

Com isso, incapaz de se adaptar ao pensamento técnico, a máxima de Vico se tornou obsoleta, de modo que o paradigma do verum quia factum (verdadeiro porque aconteceu) foi progressivamente substituído pelo do verum quia faciendum (verdadeiro porque é factível). O que isso quer dizer? Que apenas aquilo que é viável poderia ser considerado verdadeiro. Em outras palavras, a verdade com que o ser humano tem de lidar não seria nem a verdade absoluta do ser nem a de seus atos passados, mas sim apenas aquilo que pode ser repetido a qualquer momento por meio de algum experimento.

“Da fusão do pensamento matemático com o factual resulta o posicionamento espiritual do homem moderno, determinado pelas ciências, o que significa a busca da realidade enquanto revestida de exequibilidade

–  Joseph Ratzinger 2005

Um resultado positivo dessa forma de ver o mundo foi o método científico. No entanto, há também um ponto negativo que não podemos ignorar: uma vez que o mundo moderno é determinado na perspectiva apenas do que é viável, as pessoas transferiram a própria fé para este plano, ou seja, interpretando-a com a ajuda de uma teologia política como instrumento de transformação do mundo (Ratzinger 2005).

E é aí que começa o problema.

O Novo Homem

Lembra do otimismo de que um dia conseguiríamos resolver todos os problemas da humanidade através dos avanços tecnológicos? Para o pensamento técnico, isso também inclui a natureza humana: a tecnologia traz a possibilidade de planejar um homem novo a ser criado, manipulando a própria essência do ser humano para que se torne algo perfeito de acordo com seus próprios planos (qualquer semelhança com planejamento central não é mera coincidência). 

Um exemplo perfeito dessa mentalidade é a pergunta que fiz em um outro texto sobre o papel da ética na tecnologia: por que deveríamos nos guiar por ensinamentos de pessoas da idade do bronze quando vivemos num mundo tecnológico repleto de updates e correções? Será que nós, com nossos smartphones e tablets, realmente não evoluímos como sociedade desde então para construirmos novos valores?

Bem…não. 

Da mesma forma que 2 + 2 = 4 mesmo que agora saibamos calcular integrais de linha triplas, uma falsiane com smartphones ou tablets continuará sendo tão falsa quanto a falsiane da idade do bronze. Apesar de a tecnologia ter melhorado exponencialmente nossas condições de vida, ela é incapaz de corrigir as falhas da natureza humana

Como vimos com o Homem Socialista dos soviéticos e o Neuer Mensch dos nazistas, essas tentativas estão fadadas ao fracasso; uma vez que os responsáveis por planejar o tal homem perfeito também são seres humanos imperfeitos com seus próprios interesses, e cuja arrogância os impede de reconhecer seus erros até que seja tarde demais.

A Verdade Pessoal e a Visão dos Ungidos 

Num mundo que só vê como verdadeiro aquilo que é viável, o conceito de verdade como absoluta e independente de nós tem sido substituído pelo da verdade pessoal de cada indivíduo (“essa é a minha verdade”, “ache a sua verdade”,etc.). Com isso, basta ter agora uma experiência de vida marcante que corrobore sua ideologia (veracidade) e pronto! Ela vira verdadeira. A realidade se torna aquilo que você viveu, e todos os argumentos racionais contrários a ela (mesmo que verdadeiros) podem ser rejeitados, ignorados, ou relativizados porque não refletem essa sua experiência de vida.

E aqui vem o pulo do gato: para Ratzinger (2005) , essa relativização da verdade faz com que o conceito de verdade seja substituído pelo do “consenso”. Consenso de quem? Ora, daqueles que são capazes de argumentar; da elite intelectual que pauta o mainstream, chamada pelo economista Thomas Sowell de “os ungidos”. 

Na Ditadura do Relativismo, um argumento favorável ao consenso desses ungidos irá ignorar evidências empíricas contrárias e bloquear cegamente os feedbacks negativos da realidade (afinal a palavra final já foi decidida); enquanto um argumento contrário a esse consenso será descartado a priori como falta de instrução, estupidez, anti-ciência, desinformação, ou até mesmo discurso de ódio.  

Nesse cenário, conceitos propositalmente perdem sua objetividade para que a regra seja tratada como exceção e a exceção seja tratada como regra independentemente das implicações éticas. Isso reflete observações de Ayn Rand em seu obituário do conservadorismoonde ela destaca que apenas os termos e ideias alinhadas ao consenso coletivista são aceitos, tornando difícil expressar qualquer discordância moral ou ética sem primeiro adotar a visão coletivista dos ungidos como premissa.

Um exemplo concreto disso trazido pelo próprio Ratzinger (2016) é a questão do aborto: o que torna a questão complexa é termos, por um lado, o direito de autodeterminação da mulher, que deve ter de poder dispor de si mesma e ter a liberdade de decidir se quer trazer um filho ao mundo; e, por outro, o direito à vida do bebê, que estaria tendo o seu direito a vida violado porque concorre com o direito à liberdade de sua mãe. Que liberdade seria essa, cujos direitos incluiriam a liberdade de suprimir a liberdade de outro logo no começo? É um debate complexo, mas totalmente ignorado pela modernidade ao dizer que “aborto é uma questão de saúde pública”.

Tratando-se o aborto como uma questão de saúde pública, seus defensores anulam o debate ético em torno dessa questão e manipulam semanticamente a discussão para que o único ponto de vista válido no debate público seja o pró-aborto. 

É um modus operandi que vemos em todas as outras pautas políticas, capaz de ignorar direitos humanos e valores individuais quando estes forem de encontro ao consenso da elite intelectual. 

Partes da humanidade parecem sacrificáveis em benefício duma seleção que favorece a um setor humano digno de viver sem limites. No fundo, as pessoas já não são vistas como um valor primário a respeitar e tutelar, especialmente se são pobres ou deficientes, se “ainda não servem” (como os nascituros) ou “já não servem” (como os idosos). Tornamo-nos insensíveis a qualquer forma de desperdício, a começar pelo alimentar, que aparece entre os mais deploráveis

– (Papa Francisco, 2020)

Ratzinger (2016) vê nisso a meta implícita de tornar-se, afinal, como um deus, não dependendo de nada nem ninguém, nem ser limitado na própria liberdade pela liberdade alheia. Ele nota uma arrogância elitista impossível de se ignorar, que tenta se impor como a única representante justificada do progresso e da responsabilidade, visando moldar os limites éticos aceitáveis no debate público de acordo apenas com seus desejos pessoais. Não por acaso, um artigo de opinião da Revista Bloomberg aponta o movimento progressista identitário (cultura woke) como nada mais do que a exportação dos valores da elite norte americana sobre as demais elites do mundo, impondo sobre elas o seu consenso

Ainda assim, os fatos são os fatos, mesmo que inoportunos. E apesar de o atual consenso progressista negar a realidade, ela não consegue negar as consequências de negar a realidade. 

Abelhas: o Limite do Sonho Progressista

Uma análise do jornalista Johnny Harris ao jornal The New York Times revela falhas de moradia, ocupação, e taxação de grandes fortunas em estados americanos onde o progressismo democrata é maioria há décadas. Isto deveria ser impossível segundo o consenso progressista americano, que defende essas como suas três principais pautas e vê “a resistência reacionária dos conservadores” como o único motivo para ainda não termos chegado à utopia. Um estado como a Califórnia, a décadas governado pelas pessoas com “as idéias corretas”, nunca deveria ter um número recorde de pessoas morando na rua. Mas ele os tem.

O consenso dos ungidos trata seus dogmas políticos como verdades cientificamente comprovadas, mas não é assim que a ciência funciona. A ciência é uma ferramenta que utiliza o método científico para produzir evidências e encontrar resultados, mas essas evidências não indicam qual resultado é o correto. Afinal, houve uma época em que a ciência considerava a lobotomia um tratamento médico válido. 

O ponto aqui é: quando a política promete ser redentora, promete demais. Quando se vê acima dos outros e pretende fazer a obra de Deus, não se torna divina, mas sim demoníaca. Renunciar à ética e à moral para ver o mundo apenas através do viável, do factível, limita a nossa visão de mundo e nos leva ao erro. Em outras palavras, de que adianta defender com unhas e dentes que, segundo às leis da aviação, seria impossível uma abelha voar se ela está voando bem na sua frente? 

Da mesma forma, não podemos continuar dizendo que o consenso moderno é cientificamente infalível quando o vemos falhando constantemente. Pressionar para que todos os indivíduos sigam um mesmo ponto de vista em nome da ciência apenas faz com que mais e mais pessoas percam a fé na ciência como ferramenta válida.

Por isso, da mesma forma que Igreja e Estado foram separados, é preciso que haja uma separação entre Política e Ciência: a inovação tecnológica científica precisa continuar a melhorar nossa qualidade de vida assim como a Verdade pura precisa ser reconhecida para além dos interesses políticos.  Caso contrário, estaremos rumando a uma distopia cyberpunk. Mais uma vez, que nunca nos esqueçamos: Sem a Verdade, não há Liberdade.


Paulo Grego

*As opiniões do autor não representam a posição do Damas de Ferro enquanto instituição.


Referências

RATZINGER, J. C.; (PAPST), B. X. Introdução ao cristianismo: preleções sobre o símbolo apostólico : com um novo ensaio introdutório. [s.l.] Edições Loyola, 2005, 264 p.

RATZINGER, J. C.; (PAPST), B. X. Fé, verdade, tolerância: o cristianismo e as grandes religiões do mundo. [s.l: s.n.]. Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio” (Ramon Llull) 2016,  232 p.

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