A Liberdade Exige Maturidade

Se liberdade significa alguma coisa, seria sobretudo o direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir.

– George Orwell

Diante de uma sociedade que, em sua maioria, se mostra incapaz de ouvir a opinião dissonante sem sentir-se irado, ofendido, atacado ou, na pior das hipóteses, todas as alternativas anteriores, esta frase me chamou muito a atenção. A liberdade exige de nós maturidade para ouvir com respeito o argumento do outro, seu pensamento e ponto de vista. 

No entanto, assuntos que antes eram plenamente discutíveis sem maiores problemas tornaram-se tabus quase inquebráveis, em razão da incapacidade de ouvir aqueles que discordam de nós. Muitos são incapazes de responder a uma afirmação contrária à sua própria opinião sem utilizar o horrendo argumentum ad hominem, atacando o pensador, ao invés de simplesmente contestar o pensamento.

A quem interessa viver em um mundo monocromático? Quem realmente quer passar a vida ouvindo as mesmas coisas, agindo como todos os outros, indo sempre para o mesmo caminho? A quem interessa esta oposição ao dissonante, o que pensa diferente, ao que coloca um ponto de interrogação nas certezas alheias? 

Caro leitor, nem este parágrafo, nem nenhum dos outros, responderá as perguntas que você acabou de ler, eu as coloquei aqui, sem resposta, para provocar você. São questões que me vêm à mente todas as vezes que relembro da frase que inicia este texto. A liberdade exige de nós uma maturidade que nos capacite a ter debates inteligentes e inteligíveis sobre todo e qualquer assunto, seja ele incômodo ou não. 

Isso não significa que você é obrigado a ouvir, ou a responder, mas significa que você não tem o direito de tolher ou silenciar, direta ou indiretamente, por qualquer meio ou artimanha, a liberdade do outro de pensar de forma diametralmente oposta à sua. 

Todos têm o direito de tomar suas próprias decisões, mas nenhum tem o direito de forçar sua decisão sobre os outros.

– Ayn Rand

Quero que se lembre do quanto divergir é importante, a principal razão pela qual não vivemos até hoje em um sistema monárquico absolutista é porque alguém refletiu e passou a não concordar com o contrato social vigente à época. Se todos continuassem convenientemente na mesma direção, nada teria mudado, nada teria melhorado. A liberdade exige maturidade para entender a discordância como mais do que simplesmente um desafio pessoal ou uma ofensa. 

Este texto é para te alertar que quando as universidades deixaram de ser o berço do ensino, do pensamento, do bom debate, para se tornarem lugares onde muitos se calam por medo da sanção social, nosso futuro está gravemente comprometido. Como mudaremos o curso da história se todos acharem mais conveniente, confortável e “menos ofensivo” o precioso ato de pensar por si mesmo(a), de refletir, de questionar, de buscar soluções melhores, ainda que elas confrontem o pensamento vigente? 

Nem sempre quem diverge está certo(a), mas só poderemos saber disso se ouvirmos. Nem sempre o questionamento levará a uma mudança, mas é preciso responder cada pergunta com respeito e boa fundamentação. Não vamos convencer todo mundo, mas é preciso entender quão preciosa é a liberdade que nos permite debater e discordar. 

Enquanto não deixarmos de lado nossas birras e picuinhas, enquanto não entendermos a liberdade como um direito sagrado, jamais seremos verdadeiramente livres. A liberdade exige maturidade mas, em troca, nos oferece infinitas possibilidades e, com toda certeza, mundo é melhor, e muito mais belo, porque somos livres para pensar, expressar nossas ideias e propor caminhos diferentes. 


Suellen Marjorry

*As opiniões do autor não representam a posição do Damas de Ferro enquanto instituição.

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