Resenha – Antissemitismo: A 1ª Parte de Origens do Totalitarismo

Origens do Totalitarismo, escrito por Hannah Arendt, foi publicado em 1951 e retrata um panorama geral como os Estados Totalitários surgiram e se fortaleceram. 

A primeira parte da obra faz uma análise sobre o nascimento do antissemitismo, a ideia em si como uma ofensa ao bom senso, os judeus e o Estado-nação, além de descrever como se dava a relação dos judeus com a sociedade e ao fim retrata o Caso Dreyfus.

Através de uma retomada histórica, Hannah Arendt relata que, durante muito tempo, os judeus formaram grupos isolados, muito devido ao motivo de acreditarem fielmente serem os escolhidos de Deus. E muitos conflitos se davam quando eles se relacionavam com outros povos, onde se observa os primeiros sinais de um antissemitismo, porém,  até então, o antissemitismo era tão e somente a antipatia perante judeus ou suas crenças, em si uma vontade de distanciamento e constante discordância. Assim, uma diferença primordial é traçada, já que o antissemitismo presente no totalitarismo baseia-se em um antissemitismo que é parte de um argumento político ideológico e não este presente como apenas aversão.

Ao falar da relação dos judeus com os demais, é feita também uma análise da relação deles com o Estado e as sociedades ao longo dos séculos e décadas. Nos séculos XVII e XVIII, os judeus estavam relacionados com os monarcas absolutistas da época, participavam ativamente das transações financeiras importantes dos soberanos, além de viverem dentro dos padrões feudais; após a Revolução Francesa e o surgimento dos Estados-Nação no sentido moderno, época que trouxe a necessidade dos banqueiros judeus e em que foi concedida uma certa emancipação à eles na maioria dos Estados-nação. 

Curioso mencionar que, quando resolveu-se adotar a igualdade e emancipação dos judeus, os judeus mais influentes, que tinham privilégios, não gostaram e nem a aristocracia que se opunha a ideia igualitária sendo pregada. Já os burgueses da época se opunham aos judeus na mesma proporção que se opunham à nobreza pela semelhança de pensamento dos judeus e da nobreza.

No fim do século XIX, Os judeus perderam então sua posição exclusiva nos negócios do Estado para homens de negócios de mentalidade imperialista, e a sua importância como grupo declinou, embora alguns judeus conservassem individualmente sua influência como consultores financeiros e como mediadores intereuropeus.  E como grupo, o povo judeu do ocidente europeu desintegrou-se juntamente com o Estado-nação nas décadas que precederam a deflagração da Primeira Guerra Mundial.

Devido à relação íntima com o Estado, os judeus eram identificados por muitos como o próprio poder. Ao mesmo tempo, devido ao seu desligamento da sociedade e por se concentrarem em círculos familiares, eram considerados suspeitos de estarem armando algo.

O surgimento do antissemitismo, tal como se conhece, foi simultâneo em diversos pontos da Europa, como Alemanha, Áustria e França, já que nos últimos vinte anos do século XIX houve uma série de escândalos financeiros fraudulentos e em todos esses três países os judeus estavam envolvidos. Então, isso foi um grande fator para o surgimento dos partidos antissemitas, que pregavam que “sua pretensão de tomar o poder absoluto não era outra coisa senão aquilo que os judeus já haviam conseguido, e que o seu antissemitismo era justificado pela necessidade de eliminar os reais ocupantes dos postos de mando: os judeus”, além do fato que  almejavam um governo intereuropeu.

Na Alemanha, por exemplo, existia um partido esquerdista ‘Partido Liberal Alemão’, comandado por Schoenerer, que teve grande impacto nas universidades constituindo a primeira organização estudantil eficientemente “estruturada” no antissemitismo declarado. Porém, muitos desses partidos e muitas dessas organizações estudantis antissemitas perderam a força com o tempo, mas voltaram com mais violência após a Primeira Guerra Mundial.

A relação entre os judeus e o restante da sociedade é bem comentada em diversas passagens do estudo, já que mesmo que tivessem deixado de ser párias políticos e civis, os judeus continuavam sendo párias sociais, passando de aclamados a odiados muitas vezes. Tinha-se uma sociedade que tomava atitude discriminatória contra os judeus “comuns” e, ao mesmo tempo, aceitava facilmente judeus cultos em círculos elegantes da classe alta. 

Os judeus então tinham duas escolhas durante o século XIX na Europa: seguir o caminho de arrivismo ou permanecer como pária., ou seja, ser judeu significava pertencer ou a uma classe superior superprivilegiada, ou a uma massa marginal subprivilegiada. Isso porque “A genuína tolerância e curiosidade que a Era do Esclarecimento sentia em relação a tudo o que era humano cedia lugar a um mórbido desejo pelo que era exótico, anormal e diferente. Então a sociedade mais influente da época abriu espaço para os judeus.”.

O grande exemplo dos “judeus-exceção” foi Benjamin Disraeli. Ele fazia parte daqueles “judeus exceção” que acreditavam serem os escolhidos, mas nem tinham a crença no Deus em questão. Elaborou-se uma doutrina racial a partir desse conceito de missão histórica e o que ficou conhecido como ‘chauvinismo judeu’, “O chauvinismo judeu, entendendo-se por chauvinismo o nacionalismo pervertido no qual (nas palavras tiradas de Chesterton) “o próprio indivíduo deve ser adorado como reflexo do grupo ao qual pertence, tornando-se o seu próprio ideal e até o seu próprio ídolo”.”

Alguns judeus como Disraeli acreditavam e alimentavam aquela crença de que todo o jogo político era travado entre sociedades secretas. O que depois deu certo amparo aos truques publicitários de Hitler: a aliança secreta entre o judeu capitalista e o judeu socialista. Fora outra questão que embasava essa ideia, que era a ascensão de filhos milionários judeus à liderança de movimentos dos trabalhadores. Portanto, era fácil as pessoas acreditarem.

O Caso Dreyfus foi emblemático para demonstrar na prática o que estava acontecendo e como os judeus eram vistos, sendo primordial para exemplificar vários dos argumentos utilizados e fatos relatados. Caso este que girou em torno do capitão de artilharia Alfred Dreyfus, um judeu na França de 1894, que foi acusado por traição – por vender informações secretas aos alemães – e sentenciado à prisão perpétua na Guiana Francesa. Entretanto, descobriu-se em 1906 que ele era inocente e vítima de uma fraude por parte do exército francês.

Hannah Arendt menciona que foi o antissemitismo do Caso Dreyfus que abriu aos judeus as portas da sociedade, e foi o fim do Caso, a descoberta da inocência de Dreyfus, que pôs um fim à sua glória social. Já que o caso demonstrou os ditames do papel dos judeus na sociedade. 

A leitura de Origens do Totalitarismo é densa e é um processo de conectar pontos e acontecimentos históricos que permitam minimamente nos levar a entender o que aconteceu pré e durante Segunda Guerra Mundial. O antissemitismo foi um pilar importantíssimo para a ideologia que se perpetuou nessa era do terror totalitário e, para sua compreensão, a autora analisa os pontos aqui mencionados com a devida profundidade e com os recursos que se tinha na época de sua escrita. 

Sugiro que juntamente com a leitura, utilize como apoio os episódios gravados acerca da obra e da autora, pela equipe do Podcast Damas de Ferro e com a análise de convidados importantíssimos. Deixo os especificamente da primeira parte:

Hannah Arendt e o antissemitismo como uma ofensa ao bom senso 

Antissemitismo, os judeus e a sociedade 

Caso Dreyfus – Simone Mayara e Felipe Pessoa – Parte 1

Caso Dreyfus – Simone Mayara e Felipe Pessoa – Parte 2

CineDamas: Hannah Arendt as ideias que chocaram o mundo 


Stephanie Teixeira

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