Vivemos na era da infantilização institucionalizada. Nunca se falou tanto em direitos, proteção e cuidado, e nunca se viu tão pouco apreço pela responsabilidade individual, pela autonomia e pela liberdade. A sociedade moderna passou a tratar adultos como crianças indefesas, incapazes de tomar decisões, avaliar riscos ou arcar com as consequências de seus próprios atos. E, curiosamente (ou não, para quem acompanha de perto), isso é vendido como progresso moral.
A infantilização começa quando a liberdade deixa de ser vista como um valor e passa a ser tratada como um perigo. A premissa implícita é simples e profundamente arrogante: o indivíduo comum é ignorante demais para decidir por si mesmo. Logo, alguém deve nos proteger de nós mesmos: uma entidade transcendental, um pai ou uma mãe, um herói de capa, um ser mitológico ou, no mundo real, o grande e poderoso Estado, assessorado por seus “especialistas”, que deve decidir o que nós podemos comer, beber, falar, comprar, trabalhar, pensar e até sentir. Afinal, é tudo “para o nosso bem”. Quanta gentileza e altruísmo!
Mas o que é, afinal, a liberdade? Liberdade não é a ausência de riscos, desconfortos ou erros. Liberdade é a possibilidade de decidir com base nas informações e objetivos que cada indivíduo conhece melhor do que qualquer outra instância. Nenhum ser humano é onisciente, e justamente por isso erros são inevitáveis, mas também são a principal fonte de aprendizado e aprimoramento. Quando o erro é individual, seus custos e correções recaem sobre quem decidiu, criando incentivos claros para melhorar. Quando a decisão é estatal, tomada por quem não arca diretamente com suas consequências, esses incentivos se diluem. Um indivíduo impedido de errar não se torna mais seguro; torna-se dependente. E uma sociedade formada por indivíduos dependentes é, por definição, uma sociedade fraca.
O discurso da proteção constante cria uma lógica perversa: se algo dá errado, a culpa nunca é do indivíduo, mas da falta de regulação. Se alguém se endivida, o problema é o banco. Se alguém se alimenta mal, o problema é a indústria. Se alguém acredita em bobagens, o problema são as redes sociais. A responsabilidade pessoal é substituída por uma eterna busca por culpados externos, e convenientemente lá está o Estado, para te salvar de cometer erros! Sempre com uma nova lei, um novo imposto ou uma nova agência reguladora como “solução”.
Esse processo transforma cidadãos em tutelados, e como toda relação paternalista, essa também se sustenta na assimetria de poder: quem “cuida” manda; quem é “protegido” obedece. Não por acaso, a infantilização caminha lado a lado com a censura. Uma população considerada imatura não pode ser exposta a “informações perigosas”, “discursos nocivos” ou “opiniões erradas”. A verdade passa a ser algo administrado, filtrado e autorizado. O indivíduo deixa de ser um agente moral capaz de julgar ideias e passa a ser tratado como alguém que precisa ser protegido delas. Que ironia: para “defender a democracia”, elimina-se justamente aquilo que se diz ser seu fundamento: o direito intrínseco do ser humano de decidir por conta própria.
A infantilização também explica o fascínio crescente por soluções simples para problemas complexos. Se algo é difícil, caro ou exige esforço, a resposta padrão é: “o governo deveria resolver”. O adulto responsável pergunta: “como posso resolver isso?”. O infantilizado pergunta: “quem vai resolver isso para mim?”. E políticos, sempre atentos a incentivos, percebem rapidamente que prometer proteção rende mais votos do que defender a liberdade.
O medo da liberdade nasce, portanto, do medo da responsabilidade. Liberdade exige esforço, autocontrole, aprendizado e, sobretudo, a aceitação de que ninguém nos deve nada além do respeito aos nossos direitos naturais. Para muitos, é mais confortável abrir mão da autonomia em troca da ilusão de segurança, mesmo que o preço seja viver sob regras arbitrárias impostas por pessoas que não arcam com as consequências de suas próprias decisões.
A lógica da tutela se sustenta exatamente nessa troca ilusória. Como alertou Benjamin Franklin: “Aqueles que abrem mão da liberdade essencial para obter um pouco de segurança temporária não merecem nem liberdade nem segurança.” Nada mais atual.
Uma sociedade infantilizada não é apenas menos livre; é menos moral. Quando decisões são terceirizadas para uma autoridade central, o indivíduo abdica também de sua responsabilidade moral. “Eu só segui as regras” passa a ser uma justificativa aceitável para injustiças evidentes. A obediência substitui o julgamento. A conformidade substitui o caráter. E aqueles que não abaixarem a cabeça devem ser silenciados.
A liberdade não desaparece de uma vez. Ela é corroída lentamente, sempre em nome de boas intenções. Uma regra aqui, uma proibição ali, uma exceção acolá. Até o dia em que percebemos que somos livres apenas para escolher entre as opções previamente autorizadas (como, por exemplo, escolher um presidente em uma democracia).
Resgatar a liberdade exige resgatar a maturidade dentro de cada indivíduo, por mais desconfortável que isso seja. Exige aceitar riscos, discordâncias, erros e desigualdades naturais. Exige abandonar a fantasia de que alguém pode planejar a vida de milhões de pessoas melhor do que elas mesmas.
A liberdade não é confortável. Nunca foi. Mas é o único ambiente no qual seres humanos podem crescer, aprender e viver com dignidade. Tudo o que foge disso não é civilização: é tutela.
E tutela, por mais bem-intencionada que seja, sempre termina em dominação.



