Em um mundo atravessado por derrubadas de governos, sanções econômicas, guerras civis, nacionalismos renovados e crescente desconfiança entre Estados, a ratificação do Acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e a União Europeia surge como uma exceção virtuosa e, justamente por isso, digna de comemoração.
O acordo não é apenas um arranjo técnico de tarifas e quotas. Ele representa uma escolha política: a aposta no multilateralismo, na cooperação internacional e na liberdade econômica em detrimento do isolamento e do protecionismo. Em um cenário global marcado pela fragmentação das cadeias produtivas e pela instrumentalização do comércio como arma geopolítica, essa escolha não é trivial.
Ao se tornar o maior acordo de livre comércio do mundo, abrangendo mais de 32 países, 30% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial e cerca de 700 milhões de consumidores, o tratado amplia o fluxo de bens, serviços e investimentos. Na prática, isso significa menos barreiras artificiais impostas por Estados, maior previsibilidade para agentes econômicos e mais opções para consumidores. Liberdade, aqui, não é abstração: é a possibilidade concreta de escolher, produzir, competir e inovar.
Os benefícios econômicos tendem a se manifestar tanto no curto quanto no longo prazo. A simplificação de regras de comércio exterior e a redução de tarifas favorecem ganhos de eficiência, estimulam a competitividade e podem impulsionar o crescimento econômico em ambos os blocos. Para os consumidores, o efeito esperado é maior variedade de produtos e preços mais acessíveis; para os produtores, acesso ampliado a mercados estratégicos e integração a cadeias globais de valor.
Pelo acordo, a União Europeia ganha acesso de seus produtos industriais aos mercados sul-americanos, por exemplo automóveis, máquinas, vinhos e destilados. Por outro lado, os países do Mercosul ampliam o acesso ao mercado europeu para produtos agropecuários, com destaque para carne, açúcar, arroz, mel e soja.
Naturalmente, o acordo não é isento de críticas. Setores agrícolas europeus manifestaram receios quanto à concorrência externa, enquanto países do Mercosul enfrentam desafios de adaptação regulatória e ambiental. Essas preocupações merecem debate sério, mas não devem servir de pretexto para a defesa de barreiras permanentes. A história econômica demonstra que o fechamento protege ineficiências, concentra privilégios e limita oportunidades, especialmente para os mais pobres.
Ursula Von der Leyen, Presidente do Conselho Europeu, ao assinar o Acordo, destacou:
“O acordo passa a mensagem de uma “escolha clara” – “ comércio justo em vez de tarifas, escolhemos uma produtiva parceria de longo prazo em vez de isolamento e intenção de entregar benefícios reais e tangíveis para nosso povo e negócios.”
A Comissão Europeia e seus países-membros, como Alemanha e Espanha, manifestam que o acordo permite uma alternativa à dependência da China, principalmente para minerais críticos como o lítio, metal essencial para baterias. Acima de tudo, haverá isenção de impostos sobre a exportação da maior parte desses materiais. Sem contar que o acordo garante alívio do impacto das tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Pesquisadores em comércio internacional e economia política frequentemente apontam que economias mais abertas tendem a desenvolver instituições mais robustas, menor arbitrariedade estatal e maior respeito à liberdade individual. A interdependência econômica cria incentivos à cooperação e funciona como contrapeso a impulsos autoritários e nacionalistas. Segundo Welber Barral, sócio da BMJ:
“Porque o acordo oferece, para além das cifras e das cláusulas, uma moldura de valores. É compromisso com a democracia, com o Iluminismo, com o Estado de Direito. Num mundo que parece cada vez mais seduzido pelas trevas do autoritarismo, esse compromisso importa. Importa muito”.
Comemorar o Acordo Mercosul–União Europeia, portanto, é celebrar mais do que um avanço comercial. É afirmar que a liberdade de trocar, produzir, escolher e cooperar continua sendo uma resposta racional e moralmente defensável diante das incertezas do mundo contemporâneo.

