Eleições Chilenas: O Que Não Querem Que Saiba

O que acontece se uma forma de reportar a realidade é tão distorcida que acaba por irritar duas pessoas – incrivelmente – na mesma medida? Se estas duas pessoas são Suellen Marjorry e Paulo Grego, vocês, caros leitores, terão um texto escrito em conjunto. 

Vamos aos fatos: o segundo turno das eleições presidenciais no Chile  aconteceu no dia 14 de Dezembro, e José Antônio Kast derrotou Janette Jara com mais de 58% dos votos. Como infelizmente já era esperado, alguns meios de comunicação resolveram lançar mão do velho truque de chamar o vencedor de “extrema direita”. No entanto, isto é só metade do verdadeiro absurdo: esses mesmos meios de comunicação posicionaram a candidata derrotada, que é filiada ao Partido Comunista Chileno, como uma moderada de esquerda.

Sim, você leu corretamente: uma candidata do Partido COMUNISTA Chileno. Sendo considerada moderada. 

Trata-se única e exclusivamente de um envenenamento de poço, uma tentativa de colocar um candidato como aquele que acredita em coisas ultrapassadas e à margem do diálogo político atual, para que quem leia a notícia creia que a candidata derrotada é moderada e seria a melhor escolha para o país. 

 Muitos irão perceber essa manipulação, afinal ela foi muito mal feita desta vez. Muitos outros, porém, cairão no chamado efeito Gell Mann: uma tendência de aceitar assuntos sem questionar fontes ou incoerências quando se é muito leigo sobre.

Consequentemente, muitas pessoas lerão sobre as eleições no Chile e acreditarão que o fascismo está em ascensão mundo afora; radicalizando-se politicamente. Esta é mais uma comprovação de que as eleições não são mais a culminação de uma guerra de narrativas, mas tornaram-se uma parte dela. Se antes o resultado das urnas encerrava o assunto, atualmente é uma mera ocorrência que, se muito, aponta para onde serão direcionados os esforços e recursos. 

Para entender ainda melhor a dicotomia em tratar Kast como um “extremista” e, consequentemente, apresentar sua concorrente como uma opção moderada e viável, vejamos os posicionamentos do partido ao qual ela faz parte. 

O Partido Comunista do Chile: Princípios e Projetos 

Esta é uma análise da instituição e de suas crenças declaradas, conforme evidenciadas em seus próprios documentos.

O programa base do partido pode ser facilmente encontrado no seu sítio eletrônico; contudo, por ser um documento de 42 páginas, apenas alguns trechos serão abordados neste texto (mantendo-se o idioma original para que os princípios ali demonstrados falem por si). Logo no primeiro trecho, 

La proclamada disminución del rol del Estado es en realidad la restricción de las funciones de los poderes elegidos por el pueblo y el deterioro de su capacidad jurídica y material para abordar los problemas sociales; mientras, por otra parte, se fortalecen los aparatos represivos y se les asegura autonomía e impunidad. (“PROGRAMA DEL PARTIDO COMUNISTA DE CHILE Contenidos: Programa del Partido Comunista de Chile”, [s.d.] p.14)1 – grifo conforme o original. 

O Partido considera que diminuir o tamanho do Estado, além de não resolver os problemas sociais, acaba por fortalecer os aparatos de repressão, garantindo-lhes autonomia e impunidade. A realidade, porém, discorda, oferecendo-nos um excelente exemplo do contrário. 

Em Cuba, um país onde o Partido Comunista conseguiu tomar o poder, o Estado é tão grande que virou dono da internet. Sim. Você não leu errado. É exatamente isso que está expresso na Constituição de 2019, como parte do Artigo 55: 

Los medios fundamentales de comunicación social, en cualquiera de sus manifestaciones y soportes, son de propiedad socialista de todo el pueblo o de las organizaciones políticas, sociales y de masas; y no pueden ser objeto de otro tipo de propiedad. (“Constitución de la República de Cuba”, [s.d.])2

Todos os meios de mídia são controlados pelo governo. Tamanho controle deveria, segundo a lógica do Partido Comunista Chileno, impedir a repressão e permitir ao governo focar em resolver pautas sociais, certo? No entanto, quando a população cubana foi às ruas em 11 de Julho de 2021 protestar contra a falta de comida e remédios, o governo não hesitou em usar uma repressão violenta, prendendo centenas de pessoas.

Mas espera… não seria um exagero compará-lo a Cuba? Não. Pois não se trata de comparar um partido genérico de esquerda à ditadura cubana, mas sim dois partidos comunistas. O Partido Comunista Chileno enxerga o  regime cubano como um exemplo ideológico a se seguir, e está estrategicamente a conectado a ele através de sua filiação ao Foro de São Paulo3, do qual Fidel é um dos fundadores.

Avancemos duas páginas para uma citação que talvez faça com que você vire os olhos. Não diga que não avisamos: 

La forma de dominación actual es una nueva fase de desarrollo del imperialismo, sustentada por el neoliberalismo económico. El neoliberalismo se identifica hoy no sólo con su expresión económica, sino que con todos los aspectos que conforman la dominación ideológica que ha desarrollado. Así la contradicción fundamental del período es entre esa forma de dominación, en su conjunto, y el proceso de democratización creciente de la sociedad. (“PROGRAMA DEL PARTIDO COMUNISTA DE CHILE Contenidos: Programa del Partido Comunista de Chile”, [s.d.] p.16)

Você acabou de ler o Partido Comunista dizendo que o liberalismo – que alguns amam chamar de neoliberalismo – é uma forma de dominação imperialista. Há, porém, uma nuance importante nesse trecho: não é uma crítica econômica ao Livre Mercado, mas a crença de que outros princípios liberais (como direitos civis e responsabilidade individual, por exemplo) são compreendidos como um empecilho à democracia e uma forma de dominação do povo. Seria possível dominar alguém dizendo a esta pessoa: “trabalhe, ganhe seu dinheiro e, desde que você respeite o direito dos outros indivíduos e as leis, seja feliz como bem entender.”? 

Por fim, é possível encontrar na mesma página uma menção pra lá de curiosa: 

El capitalismo por esencia atenta contra los estados nacionales. En nuestra época se ha venido estructurando una red de poder supranacional, afín a la transnacionalización de la economía, cuya hegemonía está en disputa por conglomerados imperialistas, como EUU, la CEE, la asociación Asia-Pacífico, el ALCA. Esta es la expresión de la globalización capitalista. (“PROGRAMA DEL PARTIDO COMUNISTA DE CHILE Contenidos: Programa del Partido Comunista de Chile”, [s.d.] p.16). 

Se o capitalismo é o problema, por qual razão o Partido Comunista Chinês utilizou os princípios econômicos deste sistema, adaptados à sua forma de governo, para tornar-se a segunda maior economia do mundo? Se o Capitalismo é o vilão, por que os “mocinhos” estão utilizando seus ensinamentos para fazer crescer sua economia e aumentar sua influência no ocidente? 

Percebe-se,  portanto, que o Partido Comunista Chileno não se trata de um partido de esquerda comum visando a melhoria das pautas sociais e da qualidade de vida das classes mais baixas. Ele reproduz os velhos argumentos de 40 anos atrás, de quando a União Soviética ainda era tida como uma opção viável, e que vê no indivíduo um ser escravizado pelo sistema capitalista a ser libertado. É sim um partido de extrema esquerda, que deveria ser tratado como tal. Mas então… por que não foi?

Uma Imprensa Ideóloga

Para falar de imprensa, ninguém melhor do que o editor chefe da Folha de São Paulo de 2017, Sérgio Dávila. Em um texto resposta ao então prefeito Fernando Haddad, Dávila afirmaria que Haddad teria sido o prefeito mais paparicado da história do jornal, por um motivo bem simples:

“As Redações são formadas em sua maioria por uma elite intelectual de jovens progressistas de esquerda. Posso falar com mais embasamento desta Folha. Em 2014, no segundo ano de governo Haddad, censo interno realizado pelo Datafolha atestou que 55% dos jornalistas da casa se consideravam de esquerda, e 23%, de centro.” – Haddad hostiliza imprensa por não admitir crítica, escreve Sérgio Dávila (“Haddad hostiliza imprensa por não admitir crítica, escreve Sérgio DÁvila”, 2017)4

Um estudo mais recente da UFSC chamado “Perfil do Jornalista Brasileiro 2021” traria números mais precisos e atualizados, confirmando a afirmação de Sérgio Dávila

((“Perfil do Jornalista Brasileiro 2021”, [s.d.])5)

Percebe-se então que o jornalismo brasileiro é cerca de 81% de esquerda, contra apenas 4% de direita. Mais chocante ainda é que, enquanto a extrema direita é (merecidamente) insignificante no meio, os jornalistas de extrema esquerda são metade de todos os jornalistas de direita somados. É um desequilíbrio que muitas vezes torna os jornalistas incapazes de perceber o mundo a seu redor para fora de sua ideologia. Consequentemente, até mesmo o mais radical dos esquerdistas será taxado de um mero moderado; enquanto estar à direita do centro é o suficiente para ser taxado de extrema direita.

Mas então ocorre uma coisa muito irônica: o efeito Gell Mann. Nossa imprensa é tão leiga em relação ao que seria a direita que acredita em teorias da conspiração sem questionar, tal como a existência de uma suposta “Internacional Fascista” dominando países mundo afora. (“‘Internacional fascista’? Teoria da conspiração ganha força na imprensa”, 20246)

Num cenário assim, é muito difícil diferenciar o que é desonestidade de incompetencia.

Jornalismo Profissional ou Jornalismo Ideólogo?

Nesta análise, evitamos, propositalmente, traçar um perfil dos candidatos, ou falar de sua vida e biografia, nos furtamos até mesmo de citar as propostas de campanha de cada um e fazer um comparativo, isto porque, em primeiro lugar a intenção é evitar toda e qualquer menção, explicação ou citação que possa sequer parecer argumentum ad personam. Pois o ponto aqui não é defender  José Antônio Kast ou atacar Janette Jara, mas sim demonstrar os “truques” usados por alguns meios de comunicação de forma inequívoca, usando da clareza e honestidade que nos são negadas por alguns deles. 

Eis a realidade em sua forma mais pura e evidente: uma imprensa ideóloga não pensa enganar a todos com seus “truques” de segunda categoria e formas tendenciosas de relatar os fatos (isso seria um atestado de loucura e total falta de conhecimento das próprias forças e fraquezas). No entanto, uma grande parcela da população será levada a pensar de uma forma ou de outra a depender de onde eles leram, viram ou ouviram a notícia. Parcela essa que pode radicalizar-se ao ponto de partir para a violência ou, como no caso da morte de Charlie Kirk, comemorar a sua morte.

Já a parcela dos jornalistas que ficaram anos radicalizando a população? Estes dormem com a consciência limpa quando a tragédia acontece. Eles não se consideram responsáveis pela sua morte só por te considerarem fascista, mas é o fato de te chamarem de fascista quantas vezes forem necessárias que serve de justificativa para que alguém decida te matar.



  1. ↩︎
  2. ↩︎
  3. ↩︎
  4. ↩︎
  5. ↩︎
  6. ↩︎

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